Domingo, 19 de Abril de 2009

Bater a bola baixo...

 

Eis uma das expressões seguramente mais elucidativas e brejeiras no nosso linguarejar bem português, esta que se pode ler em título, e que menos explicações exige para que toda a gente a perceba.

Depois de uma paragem de mais de duas semanas na alimentação deste sítio com algo que se veja  – paragem cujo motivo mais próximo se prende, precisamente, com a necessidade de “bater a bola baixo” –  o blog O Sítio do Jazz, com a publicação de mais um texto de arquivo, entra hoje numa fase de vida mais calma e menos absorvente:  uma fase na qual, para invocar a frase que sempre se manteve lá em cima, serão ainda mais “de vez em quando” aqui publicados materiais noticiosos ou artigos sobre assuntos de actualidade  (até agora já não muito abundantes, de resto)  ou mesmo opiniões sobre um ou outro concerto ao qual tenha dado mais gozo assistir.

Assim, o grosso dos conteúdos a publicar passarão a ser, sobretudo, materiais de arquivo da autoria do escriba de serviço, saídos ao longo dos anos em outros locais e contextos e que normalmente aqui vinham sendo recordados na rubrica Achados no Baú.

Às editoras e distribuidoras discográficas que têm continuado a fazer chegar novidades ou reedições neste domínio musical, aqui se agradece a preciosa colaboração até hoje prestada, na certeza de que continuarão a ter, em estreita conformidade com as qualidades relativas dos discos a apreciar, o seu espaço de divulgação regular em Um Toque de Jazz, na Antena 2, por exemplo já no próximo mês de Maio, quase por completo preenchido com novos discos.

Ficando a marcar esta nova fase, escolhi hoje para recordar um texto publicado na folha de sala da Culturgest aquando de um concerto há anos ali realizado  (vou averiguar melhor e já aqui ponho a data)  pela Vanguard Jazz Orchestra, herdeira da saudosa Thad Jones / Mel Lewis Orchestra.  Ele pretende chamar ainda a atenção, já agora, para o seu último disco editado no ano passado  (infelizmente não distribuído em Portugal mas, como é natural, possível de adquirir através da Internet)  e que ficou classificado nos primeiros lugares, entre os melhores discos de jazz de 2008, em tudo o que é sítio de jazz:  Up From The Skies.

Até uma próxima remexida no baú!

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30 anos depois...

 

Tudo nasceu há trinta anos...  Numa época em que começava já a ser extremamente difícil, por motivos financeiros e por condicionantes de tipo logístico, erguer e manter com regularidade uma orquestra de jazz de consideráveis proporções, dois grandes músicos cuja experiência profissional em parte tinha sido adquirida nas estantes de duas big bands notáveis juntavam energias, aspirações e talentos para meter ombros a um projecto arrojado e cujo futuro, à partida, estava longe de assegurado.


Na realidade, quando em 1966 o trompetista, compositor e arranjador Thad Jones e o baterista Mel Lewis abandonaram respectivamente as fileiras das orquestras de Count Basie e de Stan Kenton, onde a sua carreira profissional florescia e conhecia a estabilidade, mal sabiam que esse seu novo projecto iria ser alimentado durante trinta anos recheados de êxitos, digressões, gravações e, sobretudo, atingindo o estatuto de um organismo musical no qual iriam brilhar muitos dos melhores músicos de estante e solistas de renome na cena do jazz norte-americano.

 

Quem poderia, então, prever que por ali passariam nomes tão prestigiados como os de Snooky Young ou Jon Faddis nos trompetes, Bob Brookmeyer ou Jimmy Knepper nos trombones, Joe Farrell, Joe Henderson, Frank Foster ou Joe Lovano nos saxofones, pianistas como Hank Jones, Sir Roland Hanna, Walter Norris ou Kenny Werner ou contrabaixistas como Richard Davis, George Mraz ou Marc Johnson?


E, no entanto, o curioso é que, de início, o projecto nada tinha de particularmente arrojado ou ambicioso. Tratava-se apenas de encontrar um local onde uma vintena de músicos se encontrassem com regularidade para ensaiar novos arranjos e composições, experimentar o prazer da prática musical em conjunto e, se possível, fazer de vez em quando meia dúzia de actuações.

 

Sorte houve, naturalmente, na escolha da pessoa a convencer por parte de Thad Jones e Mel Lewis:  nada menos do que Max Gordon, o «patrão» do Village Vanguard, um dos clubes de jazz mais prestigiados de Nova Iorque.  O contacto com ele foi feito inicialmente através de um conhecido disc-jokey, Alan Grant, que o convenceu a ouvir a orquestra.  Gordon ficou logo entusiasmado e como as noites de segunda-feira eram tradicionalmente as mais fracas da semana, contratou a orquestra para três segundas-feiras seguidas.  O êxito junto do público e da crítica foi imediato e o facto é que a orquestra  - tendo logo tomado a designação Thad Jones / Mel Lewis Orchestra -  se transformou numa das formações musicais que maiores assistências arrastavam para o Vanguard.  Durante 30 anos e até aos dias de hoje, a orquestra ultrapassaria em muito os objectivos com que havia sido criada acabando por tornar-se, mesmo, uma verdadeira instituição.


A primeira fase da big band de Thad Jones-Mel Lewis, desde o seu nascimento até ao princípio dos anos 80, foi caracterizada pela especial qualidade e energia das orquestrações de Thad Jones, o seu principal arranjador, e sobretudo pela alegria, descontracção e ao mesmo tempo eficácia que o trompetista transmitia aos músicos que a constituíam.  Jones vinha marcado pela prática musical na orquestra de Count Basie e o brilhantismo dos seus arranjos reflectia essa influência:  independentemente da notável e particular originalidade da sua escrita, sobretudo na exploração do registo médio dos metais e da sua ligação aos saxofones, o que na orquestra vinha a primeiro plano era o vibrante e entusiasmante contraste das sonoridades e dos timbres das várias secções postas em «confronto», na crescente criação de uma atmosfera emocional que não apenas unia e projectava os próprios músicos como contagiava a audiência.  E era muito considerável o espaço e o papel atribuído aos solistas, cuja qualidade se revelava verdadeiramente assinalável.  Por outro lado, Mel Lewis assumia-se, na época, sem qualquer dúvida, como o maior herdeiro dos grandes bateristas de big band, capaz tanto de desempenhar o papel decisivo de catalizador e impulsionador do impetuoso ataque dos diversos naipes instrumentais como de se remeter ao recato do mais subtil e criativo acompanhador de solistas.


Mas repentinamente, em 1979, Thad Jones resolve aceitar um convite irrecusável da Orquestra da Rádio da Dinamarca e parte para aquele país, onde viria depois a radicar-se.  A princípio ligeiramente abalada por este acontecimento inesperado, a orquestra reencontrou-se pouco tempo depois com a entrada para as suas fileiras de Bob Brookmeyer, um músico de excepção, reputado trombonista e arranjador de alto gabarito.  Ao brilhantismo mais claramente espectacular dos arranjos de Thad Jones vinha agora juntar-se a escrita mais elaborada de Brookmeyer, privilegiando os jogos da interpenetração polifónica entre os vários instrumentos e naipes, numa linha que projectava para a grande orquestra algumas das antigas experiências do chamado jazz West Coast - em particular da fase em que o trombonista trabalhou em conjunto com Gerry Mulligan -  ao mesmo tempo que aprofundava os experimentalismos tímbricos das orquestras de Claude Thornhill ou de Gil Evans.

 

A partir de então, Mel Lewis e Bob Brookmeyer conseguem fazer coabitar na orquestra a fluência e informalidade próprias do pequeno grupo instrumental com a responsabilidade e a disciplina colectiva típicas da big band -  característica que se mantém até hoje.  Mas esta é, também, a fase em que mais amplas responsabilidades criativas vão sendo atribuídas a vários elementos da orquestra, estimulando-os à escrita de novos arranjos e conferindo cada vez mais a este organismo características que o aproximaram de uma verdadeira oficina de experimentação musical.


Com a partida de Bob Brookmeyer para um período de exílio na Europa, é Mel Lewis que continua a assumir a direcção exclusiva da orquestra, cuja actividade é crescente não apenas nas actuações do Vanguard como na multiplicação das digressões pelos Estados Unidos e outros países e na edição de novos discos.  Mas a doença fatal, que há tempos se tinha declarado, acabaria por derrotar a perseverança e o estoicismo de Mel Lewis, que tocou e dirigiu até ao fim da sua vida, em 1990.


A tradição da orquestra tinha-se arreigado, entretanto, de tal maneira na cena do jazz nova-iorquino, que a viúva de Max Gordon, Lorraine, nova responsável pelos destinos do clube, resolveu fazê-la renascer com novo nome a partir daí;  e os seus músicos, muitos dos quais já estão nas suas fileiras há dez anos, honrando a memória dos fundadores, decidiram continuar a manter a existência da banda, transformando-a em cooperativa, chamando à sua direcção musical o seu primeiro trombonista, o veterano John Mosca, e fazendo regressar o pianista Jim McNeeley para seu compositor residente.


A nova Vanguard Jazz Orchestra retoma, assim, a sua plena actividade, agora com novos valores:  John Riley assume a banqueta de Mel Lewis e, nos vários naipes, brilham novos solistas como os saxofonistas Dick Oatts, Ralph Lalama ou Gary Smulyan, os trompetistas Ryan Kisor ou Joe Mosello e os trombonistas Ed Neumeister ou Douglas Purviance.  Quanto ao reportório, nas estantes da orquestra os arranjos são agora assinados por outros talentosos orquestradores  - Ted Nash, Ed Neumeister, Kenny Werner ou Jim McNeely, entre outros -  cujas partituras vêm juntar-se ao riquíssimo acervo musical acumulado pela orquestra nos 30 anos de uma existência a todos os títulos notável.

 

 


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:03
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